O crescimento de Sporting e Benfica | Relvado

O crescimento de Sporting e Benfica

 

Achei engraçado ouvir isto na Rádio, porque costumo ver os jogos no café, onde está sempre um velhote que já por diversas vezes fez essa mesma afirmação, recordando os nomes dos corredores da altura que eram verdadeiros heróis nacionais e que arrastavam multidões para os ver passar!Como na altura não existiam, ou eram muito poucas as Rádios e os jornais, e como a televisão ainda não tinha sido "inventada", os heróis eram criados por via directa, isto é, pessoalmente, estando os ciclistas em posição privilegiada, pois corriam o país inteiro. Assim, terá sido através do amor ao ciclismo que as pessoas, a nível nacional, optaram por serem benfiquistas ou sportinguistas.Mais afirma o tal convidado da "Bancada Central" que, na altura em que começaram com as Voltas a Portugal, o Benfica tinha dois ou três ciclistas muito bons, razão por que começaram a surgir no país mais benfiquistas que sportinguistas. Mais tarde, quando o Sporting conseguiu a hegemonia do ciclismo, já muitas das pessoas tinham feito a sua opção.Eu já tenho alguns anos, mas não os suficientes para ter vivido esses tempos. Será que existe aqui alguém no Relvado que tenha acompanhado esse fenómeno e que possa acrescentar ou contrariar aquilo que acabo de dizer?Será que existem outros relvas que, sendo mais novos, tenham estudado esse período e nos possam dar aqui umas lições da história da formação das massas adeptas dos clubes, incluindo aqui também o Porto?Selvabrava

I Liga:

Comentários [24]

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História de biciletas...

Este assunto da grandeza dos três clubes maiores de Portugal é um assunto recorrente. Já por várias vezes estive para mandar aqui os meus palpites sobre a questão. A última foi quando o malogrado Prozac (que a terra lhe seja leve) aqui há uns tempos escreveu uma crónica sobre o Sporting e a discussão travada com o Catota sobre quem teria sido o clube do regime do Estado Novo? Para o Prozac, na sua longa e bem documentada crónica, não restam dúvidas: foi o Sporting. Mais dúvidas tinha o Catota que achava que o clube de quem o Salazar nunca perdia o relato era o Benfica. Como o meu rato tem andado ultimamente adoentado e o veterinário lhe receitou repouso, não tenho ido recentemente até ao fim das intermináveis páginas do Relvado (a nova configuração também não ajuda). Não sei, por isso, o que pensa o Noko do assunto, mas presumo que ele não tenha dúvidas de que o Salazar "é tudo por culpa da corrupção do pintinho" e os jornalistas "a soldo do oliveirinha" que não "sabe faserem preguntas sobre a côr do açobiu dêle, e que a verdade depurtiva está adolterada por marca indelébil". Mas deixemos o Noko e seus dislates para nos debruçarmos sobre este tema cuja importância é comprovada não só pela atenção que lhe foi dispensada por dois não menos ilustres, mas muito mais credíveis, conforistas deste Relvado: o Prozac e o Catota. Desde então muitas águas correram debaixo das pontes. O Prozac, cansado da vida depressiva que aqui levava no Relvado regressou às origens e enveredou pela prática do andebol. O Selvabrava, esse, deixou-se fascinar pelo ciclismo. Sportinguista muito mais distraído que o Catota só agora reparou na importância que a bicicleta teve na formação de um clube que tanto tem contribuído para espalhar a alegria pelas casas dos portugueses... sobretudo, dizem as más línguas, dos portistas e sportinguistas. Bastava, porém, ter olhado para o distintivo do clube p'ra ver lá prantada a roda de bicicleta com um pardejo empoleirado, e, em lugar bem visível, a sigla SLB, ou seja, Sociedade Lisbonense de Bicicletas. Mais claro, e assumido, não há! Ora, e correndo o risco de estar a meter a foice em seara alheia, não posso deixar de dar o meu contributo para este interessante e pertinente confronto entre as hostes benfiquistas e sportinguistas. Quanto mais não seja porque, como diz o ditado popular, "Pimenta no cu de benfiquistas e sportinguistas para portista é refresco". Chegados a este ponto, vamos lá então a situar muito bem a questão: Terá o crescimento do Benfica e do Sporting sido condicionado pelo Salazar, ou terá antes tudo sido uma questão de mais ou menos pedalada? Comecemos pelo princípio, debruçando-nos sobre os importantes dados que já foram lançados para o debate pelo Catota e pelo Prozac. As posições em confronto para saber quem terá sido o clube do regime podem, em duas penadas, ser assim resumidas: O Sporting teria sido o clube do regime porque durante a longa noite fascista os seus presidentes teriam sido figuras gradas do regime salazarista, incluindo da Legião Portuguesa que, para os jovens menos informados aqui do Relvado, eram um grupo de brigada do reumático muito parecido com os velhotes que encontramos nos bancos dos nossos jardins, com a diferença de que tinham mais nota, nota essa que gastavam a comprar fardas militares e que, em vez de jogarem dominó, sueca e damas e de mandarem bocas foleiras sempre que passa uma boazona, faziam desfiles militares em louvor da Pátria. Imaginem o Dias da Cunha vestido de escuteiro e a bater a pala e logo perceberão. Embora seja inegável que o Sporting teve à frente dos destinos do clube muitas pessoas ligadas ao regime, acho que esta verdade insofismável do Prozac/Andebol só peca porque se desvia do verdadeiro cerne da questão. Por razões diversas, o clube mais representativo da cidade de Lisboa era o Sporting. Como Lisboa era a capital do país, e porque a cultura da época não reconhecia a existência de realidade fora da capital, o Sporting seria, por inerência, o Sporting Clube de Portugal. Quando o Prozac/Andebol afirma que as direcções do Sporting da época estavam comprometidas com o Estado Novo é uma afirmação que tem tanto de verdadeiro como de irrelevante. E isto porque, na lógica do Estado Novo, tudo o que mexia, dos clubes às casas do povo, dos grupos folclóricos às associações recreativas da Federação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), era impensável permitir que uma associação pudesse ser controlada por pessoas manifestamente da oposição ao regime. Até na mais remota aldeia estava colocado um Regedor e um Presidente da Junta tão ignorantes quão admiradores do Salazar. Alguns dizem que o Salgueiros era a excepção. É bem possível. Porém, que eu saiba, as únicas excepções confirmadas seriam o Sport Clube de Caxias, o Clube dos Amigos de Peniche e a União Desportiva do Tarrafal. Só no fim do Estado Novo, depois da morte de Salazar e com o advento da chamada "primavera marcelista", o regime permitiu certas veleidades a alguns oposicionistas da direita liberal. O que distinguia as pessoas que faziam parte das direcções não era a sua diferença de opinião política mas o estrato social a que pertenciam. No caso do Sporting, por ser o clube nobre da capital, essas pessoas eram oriundas principalmente de uma "classe abastada" (Não lhe chamo "alta" nem "média burguesia" porque, e que me perdoem as convencidas tias de Cascais, a média burguesia só surge em Portugal com a entrada na CEE e o cavaquismo; até aí o sistema era feudal, com as suas capelinhas, procissões e romarias. A média burguesia, para existir, precisa de hipermercados e grandes centros comerciais, para além de outras coisas que seria fastidioso enumerar e que, bem ou mal, só emergiram com o cavaquismo. Mas isto é assunto para outra conversa.). O fenómeno Benfica, para ser compreendido, tem de ser estreitamente ligado às grandes transformações sociais que ocorrem em Lisboa nos anos 40-50. Durante estas duas décadas a população de Lisboa quase duplica com a contínua chegada à cidade de galegos, beirões, transmontanos, minhotos e alentejanos que abandonam as suas terras à procura pura e simplesmente de matar a fome. É o período das grandes migrações internas de quem não tem meios para ir para o Brasil ou para as províncias do Ultramar e que vai durar até à explosão económica da Europa do pós-guerra e à mudança de sentido da emigração, na sua maioria, para a França e a Alemanha. Mas voltemos à Lisboa dos anos 40-50. A sociedade alfacinha estava claramente fracturada em dois grupos de interesses: o lisboeta de mais longa data, empregado no funcionalismo público, no comércio, nas Administração do Estado, funcionário dos serviços, representante comercial de empresas na capital, etc..., com um nível económico acima da média e, a seu lado, uma multidão de mão-de-obra pouco ou nada qualificada, da qual uma minoria entrava para a GNR ou ocupava postos menores na Administração e a imensa maioria ia constituir o exército da classe operária emergente na cintura industrial onde estava em curso a tardia revolução industrial em Portugal ... ou então ia fazer parte do proletariado urbano (sopeiras, estivadores, carregadores de fruta, etc...). Esta vaga de emigração interna que continuamente chegava à capital desde cedo verificou que, quase invariavelmente, o patrão, o filho do patrão e a sociedade bem instalada na vida era do Sporting. Ora, deu-se um fenómeno habitual neste tipo de situações sempre que se trata de latinos: entre procurar melhorar as suas condições de vida e invectivar e invejar a situação dos mais afortunados, opta-se pela segunda hipótese. O sportinguismo foi a pouco e pouco sendo identificado com o "elitismo", com "o clube dos diferentes", que, para os mais velhos, era uma forma como outra qualquer de reconhecer que eram os sportinguistas quem detinha o poder económico e que, para os mais jovens, e por que não dizê-lo, era uma forma desajeitada de reconhecer que eram os sportinguistas os sortalhaços que comiam as melhores miúdas. Ora, é lixado com F grande chegar a uma cidade desconhecida, ver que quem come são sempre os outros ou, na melhor das hipóteses, ficar sempre com o naco de carne com as partes menos rechonchudas. Aliás, fenómeno idêntico se iria passar mais tarde nas cidades-dormitório à volta do Porto. Está por fazer a análise psicológica do benfiquista do Grande Porto e o papel fundamental desempenhado por Dona Palma na formação da sua opção clubística (:-))... Mais a sério, e retomando o fio à meada: Esta multidão de recém-chegados que vai formar o proletariado urbano, sem interesses culturais mais amplos que a revista à portuguesa e os passeios de fim-de-semana ao Jardim Zoológico, gostava acima de tudo era de bola. Ora, ali mesmo ao lado, estava a resposta: um clube rival, desprestigiado, com raízes populares e talhadinho à medida para esta imensa vaga de deslocados. Não é por acaso que, enquanto a Presidência do Sporting era ocupada sucessivamente por personagens saídas da boa sociedade lisboeta local, o Benfica foi "assaltado" pelos novos ricos recentemente formados na capital. Estes novos ricos, advogados, jornalistas encartados, empreiteiros e outros empresários ligados à construção civil (que se tornara o negócio mais rentável para quem queria enriquecer depressa), a grandes empresas de distribuição de fruta ao Mercado Municipal e às novas empresas comerciais que começavam a pulular em Lisboa, sentiram no corpo o drama de todo o arrivista. Por muito que fosse o seu sonho, e mesmo quando a carteira transbordava de papel, cedo descobriram que nunca seriam convidados para a Avenida de Roma ou recebidos nas soirées das Avenidas Novas, da Lapa ou do Restelo. Ora, para esta gente ávida de ser reconhecida, a massa humana que diariamente arribava à capital, orfã de afectos, incluindo desportivos, era um óptimo terreno a canalizar e organizar contra os "poderes instituídos" (leia-se, Sporting) . Quem não perceber este fenómeno social, nunca vai entender a lenta formação da "alma benfiquista" e os atavismos que se mantêm até hoje. A energia meio patética meio religiosa, a ambição e a necessidade de afirmação desta gente fez o resto. A própria construção do Estádio da Luz (com o tijolo oferecido pelo sócio/adepto) é um exemplo de uma mentalidade muito própria da época. Esta visão "popular" do Benfica não foi mais do que a transposição para a grande cidade de um espírito e de um conceito de clube importado das pequenas aldeias e que se desenvolveu em paralelo com as marchas populares de Santo António e a "invenção" da tradição lisboeta pelo Estado Novo. Quando chega a década de 60 o caldo benfiquista já está preparado. Em França um jornal tinha decidido uns anos atrás criar uma competição, a Taça dos Campeões Europeus, feitinha por medida para entronizar o Stade Reims e consagrar o chauvinismo francês. Infelizmente para os franceses, importantes figuras do regime franquista, isolado da Europa, viram aí uma oportunidade única para a Espanha se afirmar no exterior. É assim que é criado sob medida o projecto europeu de um clube, o Real Madrid, que vai dominar a competição nos primeiros anos. Simultaneamente, agravava-se a guerra de independência da Argélia e começavam a surgir os embriões dos Movimentos de Libertação Nacional nas colónias do Ultramar. A Europa democrática ataca continuamente Portugal nos fóruns internacionais e manifesta claramente a intenção de apoiar os referidos movimentos. Isolado, o regime salazarista, numa primeira fase, assiste de forma passiva ao desenvolvimento do fenómeno de um clube composto só por portugueses (leia-se, do Império Português), com uma base de apoio "popular" no sentido fascista do termo, de cariz voluntarista e que melhor representaria as virtudes do povo português. Numa segunda fase, e após uma observação mais atenta do fenómeno, o regime acaba por descobrir que, afinal, o benfiquismo era a transposição quase perfeita para o plano desportivo das ideias e imagens que enchiam as páginas do Livro da Terceira Classe. A passagem do Benfica à glorificação do "benfiquismo nacional" pela cartilha do Estado Novo foi o passo seguinte: reforçar este clube, apropriando-se dele, permitiria ao regime corporativista matar três coelhos de uma só cajadada: 1 - Cumprir uma missão de regime através da afirmação das virtudes do Portugal rural no país e na Europa 2- Satisfazer um atavismo histórico ao contrariar e chatear o "vizinho e irmão" espanhol 3- Enviar uma mensagem para dentro do país, contrapondo à ideologia democrática que alastrava nas universidades e nos meios sociais burgueses os valores da portugalidade e da humildade de um povo pobre mas honrado, crente, heróico e vencedor. Quem melhor que o Benfica para representar esse papel! Com as vitórias europeias do Benfica, o fenómeno consolidou-se. A adesão ao Benfica, promovida pelo Estado Novo (e aqui acho que o Catota tem toda a razão), sucede num momento em que, por mera coincidência, começa a ser desenvolvida a televisão em Portugal e o transistor começa a chegar às mãos da maioria dos portugueses, contribuindo decisivamente para a disseminação do benfiquismo por um interior faminto, humilhado, sem auto-estima, cujo único poder se exercia violentamente sobre a mulher e os filhos, mas agarrado à ideia de uma grandeza que só o passado histórico lhe proporcionava. Um jornal, a Bola, que fora criado com a única e assumida intenção de promover o Benfica, começa a ser distribuído por todo o país. A única mensagem que fazia passar era o canto de louvor ao Glorioso que, na altura, era da conveniência do regime. Um pensador inglês da época definiu esta propensão dos portugueses para viver das glórias dos seus mortos e antepassados como o "complexo da batata", complexo característico dos povos para quem o melhor está debaixo da terra. A Bola vai esforçar-se por convencer os portugueses que o país real não era o que batia todos os recordes de analfabetismo e pauperização na Europa, que lentamente se esvaziava para França, mas o país com história, com um passado e cujo presente, à imagem do Benfica, era criativo, arrojado e vencedor. É por isso que, por vezes, me rio com as pretensões de alguns jornalistas deste pasquim de que teriam tido um importante papel no combate ao fascismo, quando, na prática, e apesar de nesse jornal terem trabalhado alguns jornalistas com ideais de esquerda, a linha editorial da Bola servia apenas os interesses do Glorioso e, por tabela, os interesses do Estado Novo que tão bem sabia explorar as frustrações quotidianas da grande massa dos portugueses. É, aliás, interessante verificar que a jornalismo desportivo português chegou mesmo ao ponto de obedecer cegamente a um pedido que teria sido feito por Salazar no sentido de não utilizarem a palavra "vermelho" quando falassem do Benfica. Durante todo o Estado Novo, o Benfica foi só, e sempre, a "equipa encarnada". Assim, e ao contrário do que afirmam alguns paladinos da Bola, será preciso esperar pela Primavera marcelista e pelo Expresso para que um jornal venha a ter uma clara influência política na defesa das ideias progressistas em Portugal. Um outro aspecto que é, quanto a mim, importante esclarecer é a ideia, que benfiquistas como a Leonor Pinhão procuram fazer passar, de que o Benfica, por ter a maioria dos adeptos em Portugal, é o clube do "povo" e, como corolário, é o clube mais "democrático" de Portugal. Que o Benfica é o clube com mais adeptos e que tem cariz marcadamente "popular" ninguém duvida. O que acho abusivo é esta frequente confusão entre "demografia" e "democracia". Os valores democráticos nada têm a ver com a demografia, com o número. Sejamos claros: a maioria do povo, as massas populares sempre estiveram com a Igreja e com os movimentos mais conservadores. A classe mais revolucionária, mais progressista e avançada da História é a burguesia. Desde a sua origem que, em termos sociais, de mentalidade, de valores de progresso, a burguesia foi sempre muito à frente das "massas populares". As maiores conquistas das massas populares foram o feito de elites, quase sempre de origem burguesa, que arriscaram a vida para as conseguir e que, no momento da luta, sempre viram essas massas do lado do opressor e a defender o "status quo". Sejamos francos: as grandes conquistas das "massas populares" foram obtidas contra a vontade dessas mesmas massas. È por isso que considero abusiva a confusão entre a democracia e o contingente de massa adepta. Se chamo a atenção para este pormenor é pura e simplesmente para explicar que a "cultura benfiquista" dos anos sessenta/inícios de setenta, apesar de ser efectivamente de cariz popular, assentava como uma luva aos ideais defendidos pelo Estado Novo. A base de apoio do Estado Novo, o culto da família, da dona de casa, da virgindade como valor absoluto, do respeito aos legítimos superiores eram valores então (e ainda hoje?) arreigados no cidadão comum. O salazarismo foi, antes de tudo, salazarento como a maioria dos portugueses. Se bem que tivesse havido meia dúzia de famílias que se encheram à custa de Salazar, a cultura do Estado Novo nunca assentou em valores burgueses. O Estado Novo, no ideal de Salazar, era o pobre camponês a chegar a casa vergado de cansaço, a mulher ao borralho e a criançada suja e faminta pelo chão. Importante era o outro mundo, não este. E para cuidar disso lá estavam os padres. O Estado Novo nunca apreciou essa Europa dos "Trinta Gloriosos" que enriquecia a olhos vistos e, a seus olhos, se depravava. Entre a cultura "aburguesada" do Sporting e a cultura "popular" do Benfica, o Estado Novo preferia, de longe, a segunda. Que o benfiquismo é uma ideologia de base tradicional, para não dizer "tradicionalista", com as suas procissões e clamores, gigantones e cabeçudos, de cariz provinciano como todas as ideologias desenraizadas da terra, e que, na ausência de referência local, para subsistir precisa de referentes culturais como o 40 Bocas, a águia Vitória e o Alentejano Mai-lo Seu Milhafre, o Taxista e o Barbas, enfim, que é um clube risivelmente "mítico", ainda se aceita. Agora, por favor, não confundamos a Feira Popular com a democracia que é coisa muito séria. E este é que é, caro Andebol, o cerne da questão. Não é o facto de ter tido dirigentes comprometidos com o regime, até porque, mais ou menos, todos os clubes os tiveram, não é o facto de terem estado presentes na inauguração do estádio mais ou menos figuras do regime (esses figurões não só iam a todas como tinham exclusivamente por profissão estar ali) que um clube pode ser considerado mais ou menos próximo do salazarismo. Para os interessados numa análise mais fria e objectiva, o importante é verificar qual dos clubes, pela sua própria concepção e espírito, era o mais fiel depositário da "ideologia" do regime. É neste contexto que lanço para a mesa dois pontos de reflexão: 1 - Durante todo o Estado Novo, estatutariamente, no Benfica só podiam jogar jogadores portugueses (ou melhor, do Império Português). Qual a razão desta imposição estatutária? Quem a criou e com que objectivos? Qual a razão de uma das primeiras medidas tomadas pela Direcção do Benfica logo a seguir ao 25 de Abril ter sido alterar os estatutos para tornar nula esta disposição? Por que razão terá sido o dito clube mais democrático de Portugal o único a ter de mudar os seus estatutos para se adaptar aos novos tempos? 2 - A queda do Benfica, após o 25 de Abril, não terá a mesma explicação que a queda das grandes empresas do antigo regime que não conseguiram adaptar-se a um ambiente de concorrência em que o Estado perdeu irreversivelmente a sua influência e em que a iniciativa individual começou a ter primazia? O domínio do FCP e dos clubes do Norte terá sido obra do acaso ou, antes, o reflexo de, primeiro com a democracia e, depois, de forma mais acentuada, com a entrada na CEE, o país se ter alargado para fora do núcleo Lisboa/Vale do Tejo? Será o Benfica um clube moderno e com futuro que atravessa uma mera crise conjuntural ou será o Benfica um clube que, pela sua própria concepção e base de apoio, se encontra estruturalmente inadaptado a uma sociedade aberta? Será, bem no fundo, o benfiquismo uma ideologia anacrónica e passadista que dificilmente resistirá à emergência da nova família e ao esvaziamento do poder autoritário na reprodução intergeneracional de modos de pensar no interior da família? Teríamos aqui um novo assunto para um outro tema: o Futebol Clube do Porto, o regionalismo, o benfiquista do Norte, o novo Vitória de Guimarães e os ódios de estimação de que os seus adeptos são alvo por parte da comunicação social lisboeta (talvez porque, ao contrário da geração anterior, e de forma cada vez mais assumida, ser vimaranense é ser adepto do Vitória de Guimarães e não, como nos velhos tempos, adepto encapotado de um clube da capital e corrente de transmissão dos interesses inconfessados da fauna dessa mesma capital que vê ser postos em risco os seus privilégios ... o que se compreende: só faltava que o Braga, o Leiria e o Farense apanhassem também o vício e o que seria deste país em miniatura, em que o respeitinho é muito bonito, sem o Terreiro do Paço e os correspondentes empregos para filhos e enteados!). É que tudo isto, ao contrário do que parece, e do que os jornalistas da capital pretendem ocultar com os seus ataques ao “clube regional”, está muito interligado. Tema interessante mas que é para outra conversa, porque esta já vai longa... Espero, cara Selvabrava, ter dado o meu contributo para explicar o crescimento dos clubes. Ou então talvez quem tenha mesmo razão é o tal velhote do café que frequentas. Afinal, tudo não passa de uma história de bicicletas e de gente que tem ou não tem pedalada para o entender ...

Não consigo fazer copiar/colar

Por isso remeto para a resposta na noticia dos 160000 adeptos do Benfica. As minhas desculpas pelos textos cortados, facto pelo qual estou alheio de responsabilidades. Com os meus cumprimentos, JPS

Nova tentativa

1º O texto está realmente muito bem escrito, dá gosto ler, peca, quanto a mim, por ser algo extenso e por deixar fugir a atenção do leitor em determinados momentos. É claro que isto também pode ser cansaço ou apenas falta de motivação da minha parte para tanta prosa. 2º É muito parcial. Revela um sentimento anti-Benfiquista que não se compreende numa pessoa que demonstra inteligência sufiente para manejar as palavras de este tão díficil idioma. 3º "...O que acho abusivo é esta frequente confusão entre "demografia" e "democracia". Os valores democráticos nada têm a ver com a demografia, com o número..." Não têm ??? Não deves conhecer o interior do teu próprio País, ou então, até conheces bem demais e tentas resguardar um eventual ataque num enorme rombo do teu discurso. Seja como for, quem escreve desta maneira tem a minha admiração. Parabéns pelo texto, quanto ao conteúdo, fico-me pelo suficiente. Com os meus cumprimentos, JPS

Re: História de biciletas...

Parabéns pelo teu comentário. Só para ter um comentário destes, já valeu a pena o meu artigo.

Vários pontos

1º O texto está realmente muito bem escrito, dá gosto ler, peca, quanto a mim, por ser algo extenso e por deixar fugir a atenção do leitor em determinados momentos. É claro que isto também pode ser cansaço ou apenas falta de motivação da minha parte para tanta prosa. 2º É muito parcial. Revela um sentimento anti-Benfiquista que não se compreende numa pessoa que demonstra inteligência sufiente para manejar as palavras de este tão díficil idioma. 3º "...O que acho abusivo é esta frequente confusão entre "demografia" e "democracia". Os valores democráticos nada têm a ver com a demografia, com o número..." Não têm ??? Não deves conhecer o interior do teu próprio País, ou então, até conheces bem demais e tentas resguardar um eventual ataque num enorme rombo do teu discurso. Seja como for, quem escreve desta maneira tem a minha admiração. Parabéns pelo texto, quanto ao conteúdo, fico-me pelo suficiente. Com os meus cumprimentos, JPS

ENORME

és enorme Bom Senso! Bem Hajas! Ninguém te iguala neste fórum. E só para que conste, que ninguém divide, se verdes ou vermelhos, que o poder durante décadas a fio esteve entrincheirado na capital, desprezando tudo o resto, quando tudo o resto era apenas e só PORTUGAL. O que eu sei e tenho a certeza ABSOLUTA, é que durante esses tempos, esses mais de 50 anos, o Porto sempre foi o patinho feio e os clubes déspotas da capital viveram um festim sempre desigual e tendencioso. Estamos VIVOS! Bem VIVOS! Viva o Porto!

muito interessante bom senso

pelo menos ajudas a esclarecer que so cerca de trinta anos apos o nascimento da ditadura por ca houve alguma intençao de utilizar para esses fins o benfica (e nao o benfica a utilizar o estado novo...)

Re: História de biciletas...

Respondi a a isso noutro tópico, o dos recorde de sócios benfiquistas, ao copy paste do Dragounhe. Mas deixo só dois pontos para rebater outras duas "evidências" do teu texto: - a legião Portuguesa não era anacrónica, como tu dizes, e enviou bastantes voluntários para conflitos violentos como a Geurra de Espanha. -embora os presidentes do Benfica fossem na na sua origem de camadas populares, isso não era uma regra. Houve exepções, como Fezas Vital, e sobretudo o maior de todos, Duarte Borges Coutinho, Marquês da Praia e conhecido justamente pela sua oposição ao regime. Talvez por ter combatido na RAF inglesa na 2ª Guerra... Quanto ao resto, desculpa, mas o teu texto, embora interessante, transpira uma presunção que em futebol é escusada.

Re: História de biciletas...

Um comentário fascinante e com muito rigor histórico, sou de escrever pouco mas gostei e muito deste comentário os meus parabéns ao seu autor. Já agora a personagem NOKO è brilhante quais pseudo-anaraquistas de Coimbra e Bloquista das repúblicas estudantis de Coimbra o Noko e as suas teorias da conspiração são brilhantes. Mais uma vez ao seu autor...QUE BOM COMENTÁRIO, bem escrito com uma boa introdução, com desenvolvimento do texto coerente e as ideias bem organizadas. Parabéns

Simplesmente...

...fantástico! Os meus sinceros parabéns mesmo não sabendo se és realmente o autor ou se fizeste copy-paste, facto que não invalida o meu orgulho em saber que existem portistas como tu... Interessante é verificar que poucos comentários houve a estas afirmações que fizeste...certamente convém mais falar nos 160 000 pagantes ou não...

vergonha de comentário deturpação da verdade

na região do norte foram os que menos fizeram em prol da revolução salazar construiu o estadio da antas os benfiquistas construiram o da luz! a pide andava atras dos amontoados de benfiquistas nas epocas dos festejos á procura de bandeiras do partido comunista! voçes vivem ainda noutra epoca de padrinhos que obtem favores desportivos e judiciais á descarada!

Ciclismo e não só

Penso que o ciclismo contribuiu muito para o "acender da rivalidade" Sporting/Benfica, mas essencialmente a grande força de adeptos do Sporting deve-se aos "5 violinos" na decada de 50 e no caso do Benfica às campanhas sensacionais da decada de 60 e não podemos esquecer o grande Eusébio. O Porto começou a engrossar o seu número de adeptos durante a decada de 80, que foi uma decada muito proveitosa em termos de titulos tendo como climax a conquista da taça dos Campeões e Intercontinental.

A minha família tem grandes tradições no ciclismo!

Fernando Moreira (vencedor em 1948) e Joaquim Leão (vencedor em 1964) são da minha família O segundo sei que venceu pelo FCPorto mas o primeiro não sei. Ainda hoje há muitos ciclista na família mas nenhum de relevo. Acho até que o único de relevo depois do Joaquim Leão foi o filho dele mas nada de consequente. E já agora: conheço muitíssimo bem o Nuno Ribeiro e o Cândido Barbosa (eles são cunhados) e são da zona da minha família.

Re: A minha família tem grandes tradições no ciclismo!

Eu nunca imaginei que o Sporting, o Benfica e o FCPorto tinham grandes tradições em ciclismo. Para a minha idade, as equipas que me lembro são a Sicasal, a Recer e o Louletano, para além de nomes como Joaquim Agostinho e Marco Chagas. Lembro-me que na altura, eu e os outros míudos fazíamos círculos de papel com o nome das equipas e colocávamos nas caricas, para brincar nas pistas da areia da praia (feitas com uma bola).

Re: Re: A minha família tem grandes tradições no ciclismo!

Sinais dos tempos.

Joaquim Agostinho!

Venceu 3 Voltas a Portugal (1971, 1972, 1973) pelo Sporting Clube de Portugal.

Re: Re: A minha família tem grandes tradições no ciclismo!

Pistas feitas com uma bola? Eu punha a irmã pequena em cima de uma toalha e arrastava-a pela praia fora... o percurso ficava bem definido... hehehe

Re: Re: Re: A minha família tem grandes tradições no ciclismo!

lol, isso podiam ser pistas...mas de aeroporto, lol.

Até nesse aspecto somos...

...superiores... FC Porto : 12 vitórias slb: 9 scp: 9 Refiro-me obviamente à prova rainha, ou seja, a Volta a Portugal... E desta vez não adianta vir com a história do apito... A fonte foi a wikipedia...

Só falta serem superiores no futebol...

Campeonato dos Campeonatos Pos..Equipa..P..Pontos..J....V......E.....D....GM....GS 1...Benfica...73..3077..1996.1349..379..268.4906.1822 2...FC Porto..73..2958..1997.1294..370..333.4448.1882 3...Sporting..73..2893..1997.1241..411..345.4547.1947

Não vamos com o Apito porque...

aí não há árbitros. Se calhar por isso é que a coisa estava tão equilibrada.

Sejam humildes...

...e reconheçam a nossa superioridade...eu sei que custa mas vocês conseguem..acreditem...

Re: Não vamos com o Apito porque...

lol

erro

em parte ele fala grande verdade porque uma das marcas do desporto nacional do sec XX foram os duelos benfica-sporting em ciclismo: jose maria niculau contra trindade. mas a grandeza nao vem dai. no caso do benfica, poucos sabem de onde vem a denominaçao glorioso. essa denominaçao é muito anterior as teorias maradas sobre a ditadura apoiar o benfica... e anterior a propria ditadura. e nao foi dada exclusivamente por benfiquistas, foi pelo pais em peso! com efeito, no inicio do seculo XX, foi o benfica a primeira equipa portuguesa a vencer os ingleses de carcavelos. julgo que por 2-1. e devido a isso nos chamaram de "gloriosos"